Nós vamos aprender alguma coisa com a pandemia?

A crise vai passar, mas as ações positivas adotadas durante a quarentena podem ficar para sempre

pandemia de coronavírus vai passar. E, com ela, vai-se embora também a quarentena. Embora ainda não se saiba exatamente quando isso vai acontecer, já é possível pensar, especular e, principalmente, sonhar com esse dia. A pergunta que nos cabe nesse momento é: “Vamos aprender alguma coisa?”. Ou ainda: “O que pode ser melhor daqui para frente?”.

Primeiro, vamos olhar para dentro. Quando tudo isso for uma lembrança amarga (ou um aprendizado duro) o que é que vai nos sobrar? Se “de tudo fica um pouco”, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade, qual será esse pouco que restará na hora em que a vida voltar ao normal?

As cenas de solidariedade e colaboração entre vizinhos e desconhecidos pode ser uma pista. Os netos que estão se resguardando por amor e empatia aos avós e os pais que estão se reconectando com os filhos também são bons exemplos.

E que tal a falta que está nos fazendo um café com os amigos, um happy hour depois do trabalho ou um aperto de mão e um abraço? Tudo isso deve ser o motor da nossa mudança e, claro, da mudança do mundo. Mas vamos começar pequenos, dentro da gente mesmo.

A funcionária pública Eleonora Rigotti, de 33 anos, tem colocado a placa “Fique em Casa” em sua janela e apoiado outras ações de conscientização e ajuda. “Eu espero que as pessoas percebam que não adianta ser bom só para o indivíduo. Precisa ser bom para todo mundo, para o seu colega de trabalho, para seu vizinho, para os idosos. Temos que cuidar um dos outros”, disse. “Vamos entender que estamos todos conectados e que precisamos cuidar melhor das nossas relações e da própria cidade”.

Para Camila Salmazo, orientadora educacional do ensino médio do Colégio Marista João Paulo II, o vírus vai nos fazer repensar sobre o que temos feito das nossas próprias vidas. “A gente atropela muitas oportunidades, não enxergamos coisas boas ou pessoas que estão ao nosso redor. Nem na higiene a gente reparava tanto. Não podemos sair dessa desligando um botão e voltando à velha rotina”, ponderou.

Camila acredita nas mudanças internas: “Vamos aprender a desacelerar, nos alimentar melhor, ouvir as pessoas, mudar nossas relações de trabalho e priorizar o que podemos aprender com novas experiências”.

‘Ídolos de barro irão derreter’, diz professor de filosofia

“Algumas coisas vislumbro para o momento posterior à tempestade, em que muitos ídolos de barro irão derreter”, falou o professor de filosofia do Mackenzie, Gerson de Moraes.

Para Moraes, políticos, formadores de opinião e religiosos que “estão nadando contra a verdade que está posta irão perder seu capital simbólico”. “Pode observar que pessoas que hoje ditam regras de comportamento irão encolher depois da pandemia”, disse.

O professor vai além: “As empresas que só enxergam a população como clientes e consumidor também terão sérios problemas no fim da pandemia”. Moraes acredita que o estímulo pela concorrência deve diminuir. “As pessoas vão entender que o mais importante não é o dinheiro, mas a própria vida”, afirmou. “O capitalismo precisa se transformar em algo mais fraterno, humano e colaborativo. Com todo mundo em casa, a força civilizatória se faz presente. Vai perder quem nega a ciência e tudo aquilo que construímos como humanidade. Será também uma possibilidade de combater teorias da conspiração e valorizar informações de qualidade”, completou.

Empresas estão descobrindo que trabalho remoto é possível

Para o mestre em Direito Trabalhista, Alexandre Silvestre, o universo das empresas está descobrindo que o trabalho remoto é possível. “Tenho conversado com empresários que dizem que a produção aumentou nesse período. As pessoas estão mais focadas. Essa experiência pode ser levada para o ambiente corporativo”, disse.

Para ele, a tendência é que as leis trabalhistas sejam simplificadas e desburocratizadas. Além disso, Silvestre aposta no crescimento do home office. “Existiam empresas reticentes, mas a realidade está mostrando que as pessoas dominam as ferramentas tecnológicas e podem trabalhar a distância”, falou.

Na saúde, ao menos uma mudança prática para saltar aos olhos de quem estuda o tema. Ricardo Ramires Filho, advogado e membro da Comissão de Estudos Sobre Planos de Saúde e Assistência Médica da OAB/SP e Coordenador do Comitê de Estudo Sobre a Atenção Domiciliar da OAB/SP, aposta na telemedicina como uma resposta após o fim da pandemia.

“Devemos ter mudanças no acesso à saúde pública e privada. A regulamentação da teleconsulta e telemedicina vai agilizar processos”, projetou.

Ramires diz que a nossa cultura é “hospitalocêntrica”. “Cerca de 80% da demanda nos prontos-socorros são casos que poderiam serem resolvidos com consultas a distância e deixaríamos os hospitais para casos sérios”, disse.

Agora, vamos olhar do alto e tentar enxergar o quadro todo. O que será do mundo pós-pandemia? A organização e a relação entre as nações mudarão? O mestre em Direito das Relações Econômicas Internacionais pela PUC/SP, Lucas M. de Souza cita o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012), autor do livro Era dos Extremos, para advertir sobre a dificuldade de se analisar o tempo presente quando se está inserido nele. Ainda assim, segundo Souza, é razoável imaginar que as nações avancem em termos de cooperação internacional. “Antes da pandemia, a postura no mundo estava cada vez mais isolacionista”, disse.

 

* Entrevista do sócio Alexandre Fragoso Silvestre ao jornal O Estado de S. Paulo. Clique aqui para ler a reportagem diretamente no portal do Estadão.

Publicações relacionadas

Chegar atrasado ao trabalho pode dar demissão por justa causa?

Em notícia públicada pelo G1, o sócio e coordenador da área Trabalhista, Alexandre Fragoso, comentou sobre o caso dos médicos que atuam no SAMU de Porto Alegre e estão sendo investigados por descumprirem a carga horária. Para Alexandre, quando se trata da iniciativa privada, em que os funcionários são regidos pela CLT, as empresas não são obrigadas a abrir um processo administrativo disciplinar, mas também precisam provar as irregularidades cometidas pelos trabalhadores para aplicar a penalidade. O sócio lembra que, caso ocorra o descumprimento de regras por…

Impactos tributários da MP 936/20

Finalmente, foi publicada a Medida Provisória nº 936/20, que institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda e dispõe sobre medidas trabalhistas para enfrentamento do estado de calamidade pública decorrente do coronavírus (covid-19). Todavia, nem só de repercussões trabalhistas vive a MP. Nos termos do art. 5º, fica criado o Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda, a ser pago de forma complementar a redução proporcional da jornada de trabalho e de salário ou por ocasião da suspensão temporária do…

O retorno do voto de qualidade do CARF

No dia 30 de agosto foi aprovado pelo Senado Federal o Projeto de Lei (PL) nº 2.384/2023 que, dentre as mudanças trazidas em seu bojo, destaca-se o retorno do voto de qualidade no CARF e a possibilidade de redução de multas. O voto de qualidade é o mecanismo já existente e que se refere ao voto decisivo proferido pelo Presidente das Turmas da Câmara Superior do CARF, nos julgamentos que terminam empatados, sendo que, o posto de Presidente é ocupado por um conselheiro do Fisco.…